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Por que é tão difícil?


06/nov/2023 | Anielle Casagrande |

Desde que começamos a investigar se nosso filho tem ou não autismo (apesar de uma psiquiatra e uma neuro terem falado que tem, ninguém quis fechar diagnóstico), tenho observado atentamente a diferença entre famílias típicas e atípicas. Para meu desespero, me identifico muito com as atípicas. Mesmo que meu filho seja típico, eu não sou, então nossa família é oficialmente atípica de qualquer forma.

As mães atípicas estão cansadas, irritadas, e seguem lutando. O diagnóstico é só o começo da treta. Depois precisa acompanhar se tem acesso e não sofre abusos na escola e nas terapias. E também precisa lidar com o mundo, que não está pronto para pessoas como nós. Não é fácil. Na verdade é enlouquecedor. O tempo todo você precisa se esforçar muito por algum respeito… enquanto as pessoas típicas não têm noção alguma da sobrecarga da nossa realidade. 

Esses dias, falando com uma mãe típica, minha vontade foi chorar por dias a fio. Para ela, tanto faz a escola em que vai pôr o filho e nem se preocupa com sua interação, agitação, seletividade alimentar, agressividade. Ela também não sabia o que era terapia ocupacional e nunca precisou levar o filho ao psiquiatra com dois anos. Faz compras de mercado com uma criança que não tem crises e é tranquilo. Estava tão feliz com a maternidade que já planejava o segundo. Enquanto eu mal dou conta de um, mesmo com rede de apoio paga e escola. 

Me pego pensando com frequência por que é tão difícil. Já cheguei a me culpar por ter tido filhos sendo que não dou conta e ainda teoricamente gerei mais um autista pra passar tudo que passei e passo. Mas não. Estava redondamente errada. A culpa de sermos uma família atípica com tantas dificuldades não é nossa. A culpa é de uma sociedade pouco compreensiva, que fica encarando quando a criança arranca toda roupa e tem crise toda vez que vai ao mercado (onde adivinhem: a fila preferencial está sempre enorme). A culpa é da sociedade que não oferece bons tratamentos e políticas públicas para que possamos conviver e sobreviver com mais conforto nesse mundo, que nos trata mal.


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