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“Eu sou uma bailarina”


23/out/2023 | Anielle Casagrande |

Uma vez estávamos em uma loja infantil de shopping, quando Nico começou a pegar várias bonecas e bolsas da sessão “de menina” e ficou brincando no chão. Um casal com dois meninos parou para assistir a cena. Eles pareciam bem curiosos com os interesses do Nico e principalmente com o andamento que eu daria na situação. 

Quando eu entrei na brincadeira e juntos colocamos as bolsas e desfilamos pela loja, sentimos muitos outros olhares de julgamento. Enquanto uma menina brincando de carrinho pode ouvir para ser mais delicada, o menino que gosta de bolsas é chamado de “veadinho”, “afeminado” etc e recebe olhares pra lá de asquerosos. Não consigo pensar em outra palavra. 

Agora ele pede pra pintar as unhas de rosa, passar batom e andar de salto pela casa. Ele diz que quer ser uma bailarina, por causa de algum desenho que ele viu. Não tem nenhum cunho sexual: observem que ele nem sabe o que são homens, mulheres, meninos, meninas. Também não sabe o que é ser gay, hétero etc. Ele só sabe que viu uma bailarina dançando e achou muito bonito e muito legal. Assim como ele gosta de ver desenhos e depois brincar de bruxa, múmia, zumbi, monstro, fantasma, homem aranha, chapeuzinho vermelho, lobo mau.

Quem coloca orientação sexual em tudo são os adultos. A única função de uma criança é brincar, e pra ele tanto faz se a bailarina é menina (que ele nem sabe o que é), usa sapato, batom e esmalte. 


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